Fragmentos contínuos, abstratos diários, destinos atingidos;
- Andressa Melo
- 3 de mar. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2022

Eram 18:25 da tarde, inverno... tudo estava frio, até a estação do ano. Parecia de noite, e o vento gelado que batia na janela do apartamento secavam as lágrimas que escorriam em meu rosto, mais uma vez, de novo. Parecia que aprendi chorar quando nasci, mas havia esquecido como parar...
Faziam anos, que todos os dias, jurava que iria conseguir e os dias me fizeram mais forte.
De fato, conseguia mesmo, sempre consegui tudo o que quis, sempre, pois, sempre que determinava que iria dar certo, as coisas davam certo.
Mas isso não significa que os dias ficaram mais fáceis.
Todos os dias, passava por uma ponte alta, por um prédio enorme, por uma linha de trem, por rodovias com carros em movimentação e com alta velocidade.
Posso afirmar que forte e corajosa é algo que fui, pois, mesmo pensando que morrer fosse uma saída nos momentos em que passava nesses locais, me preocupava como que isso causaria na mente de outra pessoa, até no ato de pensar em morrer, me colocava no lugar do outro sentindo o impacto e o poupava de qualquer trauma possível, (ressignificava) minhas memórias e buscava construir a felicidade que ainda não havia sido experimentada, acreditei mesmo por muito tempo, todo dia que tudo mudaria, melhoraria, transformaria...
Sempre acreditei no bonito, não importa o quanto a situação estivesse feia.
Conheci pessoas incríveis que por dentro estavam tristes e ainda sorriam, mas parecia que mesmo com toda tristeza que via, minha dor me consumia e me matava sem me matar, somente me vendo agonizar a morte;
durante um tempo a comida me distraiu, por outro tempo meu reflexo no espelho me distraiu, por outro tempo esqueci o mundo... fiquei perdida em um mundo literário, acredito que sempre vivi nele, mas passei bastante pelo mundo real e não gostei muito.
Por um tempo me distrai me apaixonando, outros momentos me distrai aprendendo, amava aprender, descobrir, conhecer, amava essas coisas. Na verdade, o desconhecido sempre me atraiu muito, talvez por isso aprendi tanto, nunca tive medo do nada, do vazio, ou do novo... Mas sempre tive medo de mim.
A comida não me distraia mais, a música e um cigarro já eram as únicas coisas que me inspiravam para escrever sobre a paz, meu fone de ouvido e minhas canetas se tornaram mais importantes que meu almoço, um girassol já era mais valioso que o ($) real, os abraços eram mais importantes que o décimo terceiro salário, e nada, nada me preenchia, somente algumas coisas ocupavam espaços.
Sentia medo, de sentir coragem e partir. Afinal o desconhecido nunca me assustou.
Tinha muita coragem, e minha coragem sempre foi a única que me causou medo.
A ÚNICA!
Hoje, se você esta lendo isso é porque tive coragem de embarcar na viagem que ninguém conhece, e que só existe passagem para ir.
Peço que você entenda que não desisti de viver, só queria conhecer novos lugares, sair no monólogo da rotina diária, quem sabe pra onde fui... Sei que fui forte enquanto estive por aqui, hoje, quando estava saindo do meu apartamento...
Senti que era o último dia que eu precisaria ser forte, eu morava no 23° andar, se fosse para causar impacto me jogaria ali de cima, ou me afogaria na banheira, me cortaria onde sei que sangraria até a morte e ninguém ia notar... Enfim, eu sabia o que fazer, só não era como queria fazer.
Não era o meu estilo aquilo, sempre disse que eu nunca morreria, quando eu partisse seria uma viagem, fiquei linda, perfeita, e minha alma estava aliviada. Talvez encontrei a felicidade antes mesmo de partir! Ali, olhando pra mim, tive a certeza do que era alívio.
Olhei para o céu, estava chuviscando, e ventando muito, tinha uma sessão de fotos que havia marcado do outro lado da cidade e eles deviam estar me esperando, porque, pela lógica eu já estava bem atrasada, mas enfim não teriam fotos e eu tinha uma viagem.
Alimentei meu gatinho, reguei minhas flores, agradeci muito por ter permanecido até hoje nessa viagem aqui nesse lugar... confesso que foi incrível, e olha algumas coisas poderiam nunca ter acontecido, e alguns lugares nunca deveria ter conhecido, mas como estou indo para outra viagem deixo a passagem de minha vida descrita com amor, com muito amor, desde meu primeiro amor, até o meu último que ainda abençoo em pensamento cada um, cada tipo de amor que desencadeou uma onda de dopamina no me sistema nervoso em algum momento, causando emoções únicas no meu ser, gratidão.
Eu fui, porque decidi ir, e a viagem é minha, onde me der vontade de caminhar sei que posso. Foi por isso que fiz, sempre fui assim, fazendo o que precisava e não o que fosse devidamente julgado como correto ou agradável ao outro.
Fui embora feliz, e se você leu até o final, te desejo uma ótima viagem por aí...
Estou ótima, fica em paz, só não existo mais como existia e isso não vai maltratar ninguém, embarquei como deveria. Se quiser me ter por perto, é só lembrar de mim, sempre lembrei mais dos outros do que se lembraram de mim, tenho certeza que com você não será diferente.
Segue em frente, e por favor sem drama, vitimismo ou conformismo.
Siga em frente, e olhe pra ti, toda vez que quiser desisti.
Porque hoje, hoje eu fiz exatamente isso...
Continuei, embarquei no novo caminho, em uma nova viagem, mas não desisti da minha vida como você imaginou no decorrer desse contexto tão complexo.
Só quero que você saiba, que tenho todos os motivos plausíveis para desistir, tenho todas as dicas pra morrer e não só em teoria, mas com experiências práticas que vivi...
Mas olha, se mesmo sozinha, estou aqui, e tenho fé na vida, você também consegue.
Não me matei, mas troquei as rotas dos meus planos e me ressignifiquei.
Pra sempre, a fragmentada_





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